O Setembro Amarelo, período dedicado à conscientização sobre suicídio, tem motivado empresas de todo o Brasil a ampliar ações de saúde mental. As iniciativas, que incluem palestras, materiais informativos e apoio psicológico, ganham força em um cenário marcado pelo aumento dos afastamentos por transtornos mentais. Em 2024, o Ministério da Previdência Social registrou 470 mil benefícios por transtornos mentais e comportamentais, número recorde na série histórica. Paralelamente, o relatório State of the Global Workplace, da Gallup, indica que 41% dos trabalhadores relatam altos níveis de estresse diário.
A psicóloga, escritora e especialista em comportamento organizacional Ana Luísa Winckler observa que, apesar da visibilidade das campanhas, o foco ainda recai sobre o indivíduo, enquanto aspectos estruturais do ambiente de trabalho permanecem pouco discutidos. Segundo a especialista, a exigência constante de resiliência transfere para o colaborador responsabilidades que também competem à gestão.
"Existe uma tendência de psicologizar problemas que muitas vezes são organizacionais. Nem todo sofrimento nasce dentro das pessoas; parte dele é construída na forma como distribuímos poder, desenhamos metas, exercemos liderança e organizamos relações", afirma Winckler.
A discussão ganha relevância com as recentes alterações na Norma Regulamentadora nº 1 (NR‑1), que passaram a exigir do empregador o gerenciamento explícito dos riscos psicossociais na rotina de Segurança e Saúde no Trabalho. A norma orienta as empresas a ir além de benefícios pontuais e a adotar medidas preventivas técnicas.
Para a psicóloga, a prevenção efetiva requer revisão de processos como definição de metas, margem para erro e aprendizado, controle exercido por lideranças e garantia de segurança psicológica para que colaboradores relatem sobrecargas antes de atingirem o esgotamento.
"Empresas não adoecem pessoas deliberadamente, mas podem adoecer quando naturalizam estruturas que tornam o sofrimento previsível", destaca Winckler. "O verdadeiro desafio do Setembro Amarelo não é apenas convencer as pessoas a falarem sobre saúde mental, mas criar organizações onde cada vez menos colaboradores precisem pedir socorro."
Ana Luísa Winckler possui mais de duas décadas de atuação no desenvolvimento de lideranças e culturas organizacionais, orientando empresas em processos de transformação cultural, bem‑estar corporativo e gestão preventiva de riscos psicossociais.
Especialistas apontam que a integração de políticas de saúde mental à gestão de processos pode reduzir afastamentos e melhorar a produtividade. Dados do Ministério da Previdência Social sugerem que a maioria dos benefícios por transtornos mentais está associada a condições de trabalho que poderiam ser mitigadas por intervenções estruturais.
A expectativa é que, com a implementação das exigências da NR‑1 e a adoção de práticas preventivas, as organizações reduzam a incidência de sofrimento psicológico e, consequentemente, os custos associados a afastamentos e turnover.
A discussão sobre saúde mental no ambiente corporativo deve, portanto, avançar da mera comunicação de campanha para a revisão de práticas gerenciais, metas e cultura organizacional, conforme enfatizado por Winckler.
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