Polícia Crime
Veterinários viram réus em caso de venda de sangue de gatos
Cinco pessoas são acusadas de maus-tratos e associação criminosa por esquema que coletava e vendia bolsas de sangue felino por até R$ 800
18/09/2026 17h08
Por: Luiz Peniza | Estagiário Fonte: Da redação

Dois médicos-veterinários de Rio Preto foram apontados pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP) como integrantes do núcleo que teria coordenado um esquema de coleta e comercialização clandestina de sangue de gatos em Monte Alto, a cerca de 120 quilômetros do município. Ao todo, cinco pessoas foram denunciadas e agora respondem como réus nesta nova etapa da investigação, que apura crimes de maus-tratos contra animais e associação criminosa. A Justiça de Monte Alto, por meio da juíza Suellen Rocha Lipolis, da 2ª Vara, recebeu a denúncia no dia 10 de setembro.

Segundo a acusação, os dois veterinários teriam funções relacionadas à coordenação das atividades e à comercialização do material coletado. Uma das profissionais é apontada como proprietária oculta de um banco de sangue veterinário e, de acordo com o MP, teria participado da organização das coletas, definido os valores pagos aos responsáveis pelos animais e obtido lucro com a venda das bolsas. A investigação aponta que cada bolsa de sangue era comercializada para clínicas veterinárias por valores entre R$ 500 e R$ 800, enquanto os tutores que autorizassem a retirada de sangue dos gatos recebiam R$ 50.

Além dos veterinários, outros três homens foram denunciados. Conforme a investigação, os envolvidos exerciam funções distintas, relacionadas ao financiamento, à coordenação, à captação dos animais e à realização das coletas. A Polícia Civil apontou que a atuação alcançava Monte Alto, Rio Preto, Mirassol, Catanduva e outras cidades da região.

Origem da investigação

A nova denúncia é resultado da investigação iniciada em outubro de 2025, quando a Polícia Civil descobriu um ponto clandestino de coleta de sangue de gatos em Monte Alto. Na ocasião, três pessoas foram presas em flagrante após a Guarda Civil Municipal localizar uma casa onde os procedimentos eram realizados. A ação começou depois que um anúncio circulou nas redes sociais oferecendo R$ 50 a tutores que disponibilizassem gatos para a retirada de sangue.

Os agentes entraram em contato com o responsável pelo anúncio e foram até um imóvel na Rua Marciano de Vasconcelos Nogueira. No local, encontraram cinco pessoas, equipamentos utilizados em procedimentos veterinários e seis gatos desacordados. Os animais foram retirados da residência e encaminhados para atendimento veterinário. Um deles foi diagnosticado com Vírus da Imunodeficiência Felina (FIV), doença que compromete o sistema imunológico dos gatos.

Foram presos em flagrante um estudante de veterinária, de 37 anos, morador de Bady Bassitt, uma aposentada, de 50, e uma empregada doméstica, de 42. Após a audiência de custódia, apenas o estudante permaneceu inicialmente detido. Segundo a investigação posterior, ele coordenava parte das coletas e recebia R$ 300 por diária, enquanto os auxiliares ganhariam R$ 100. Posteriormente, ele também deixou a prisão. Outros dois homens, de 37 e 63 anos, moradores de Bady Bassitt e Rio Preto, também passaram a ser investigados durante aquela etapa da apuração.

Os investigados afirmaram à polícia que prestavam serviços para uma clínica veterinária de Rio Preto que mantinha um banco de sangue animal. Na época, a defesa do estudante sustentou que a coleta de sangue em animais não era proibida quando realizada com finalidade terapêutica e afirmou não haver provas de maus-tratos.

Nova denúncia

Segundo a Polícia Civil, a nova investigação reuniu laudos periciais, análises de celulares, documentos financeiros e depoimentos para identificar a estrutura do grupo e a função desempenhada por cada integrante. Os cinco denunciados passaram a responder à nova ação penal: três deles foram acusados de maus-tratos contra animais, por seis vezes, além de associação criminosa; os outros dois respondem por associação criminosa.

A acusação de maus-tratos atribuída a parte dos envolvidos também é apurada em outro processo. O recebimento da denúncia pela Justiça não representa condenação, e os acusados ainda terão oportunidade de apresentar defesa.

À época, o banco de sangue veterinário Hemoser informou, por meio de nota, que a coleta de sangue em animais não era ilegal e negou a ocorrência de maus-tratos aos doadores. A empresa afirmou que os bancos de sangue humanos e veterinários têm diferenças e defendeu que a atividade fosse analisada de acordo com as normas que regulamentam a coleta de sangue animal, recomendando ainda que informações sobre o procedimento fossem verificadas antes da divulgação de conclusões sobre o caso.