A perda do filho Carlos Gilberto Ferreira de Queiroz, em janeiro deste ano, levou a costureira Rosi Queiroz a buscar na oficina de bonecas de fuxico do Cras Jardim Aeroporto um caminho para enfrentar o luto. O que começou como uma tentativa de ocupar a mente e retomar a rotina, após oito meses de sofrimento, transformou-se em um projeto de solidariedade que pretende levar alegria a crianças em situação de vulnerabilidade social.
Com as técnicas aprendidas durante a capacitação, Rosi aperfeiçoou suas habilidades de costura e deu vida ao projeto “Linho: criando memórias e trazendo alegria”, criado em homenagem ao filho, carinhosamente chamado de Carlinhos. Com a ajuda da família, ela confecciona bonecos de pano que pretende doar às crianças no final do ano.
A iniciativa surgiu após uma amiga convidá-la, por meio de um aplicativo de mensagens, para participar da oficina oferecida pelo Cras. Em busca de uma atividade que a ajudasse a lidar com a perda, Rosi aceitou o convite e encontrou no curso um ambiente de acolhimento, aprendizado e novas amizades.
Durante as três semanas de atividades, a convivência com as demais participantes e o aprendizado das técnicas artesanais contribuíram para mudar sua rotina e melhorar seu bem-estar emocional.
“Sair de casa para fazer esse curso me fez muito bem. Foram três semanas em que eu estive muito bem, cheguei em casa muito leve e me satisfez”, relata a artesã, que se destacou durante as aulas e chegou a auxiliar outras colegas na execução das atividades.
A oficina foi ministrada por Lucileide da Rosa Pires, professora da Gerência de Trabalho e Ações de Cidadania, que orientou os 20 participantes sobre os materiais e as ferramentas utilizados na confecção das bonecas. O conteúdo incluiu seleção e combinação de tecidos, técnicas de corte e costura, montagem dos fuxicos, confecção das bonecas, aplicação de cabelos, roupas e acessórios, além de acabamento, decoração e noções básicas de precificação e comercialização.
Foi no ambiente de acolhimento proporcionado pela oficina que Rosi encontrou inspiração para transformar a saudade do filho em uma iniciativa solidária. Segundo ela, Carlinhos era uma pessoa generosa, sempre disposta a ajudar o próximo, característica que motivou a criação do projeto.
“Esse vazio que a minha alma sente me impulsionou a fazer algo que meu filho gostaria que eu fizesse, que seria me doar. Depois que comecei a fazer esses bonecos, me sinto um pouco mais leve. Sei que, se ele estivesse em vida, estaria muito feliz com essa iniciativa”, conta, emocionada.
Com as técnicas aprendidas no Cras, a costureira já produz diferentes modelos de bonecos de fuxico. Cada peça carrega detalhes especiais, como um coração bordado no peito e uma marca no pescoço, que representa a mancha de nascença do filho.
Batizados de Juju e Linho, este último uma referência ao apelido de Carlinhos, os bonecos são confeccionados com muito carinho. A meta de Rosi é produzir pelo menos 200 unidades para presentear crianças em situação de vulnerabilidade social no final do ano.
Para dar continuidade à iniciativa, ela conta com o apoio da família e busca a colaboração da comunidade, por meio de doações de materiais, como lã e enchimento.
“É um trabalho sem fins lucrativos que necessita do apoio da comunidade, com doações de insumos como lãs e enchimento para manter a produção aquecida. Caso o volume de vendas apareça ao longo do caminho, os recursos serão revertidos para a continuidade do próprio projeto”, explica.
Além de histórias de superação e transformação pessoal, a oficina de bonecas de fuxico integra as ações da Secretaria de Assistência Social e Cidadania (SAS), que busca estimular o desenvolvimento de habilidades e o potencial criativo dos participantes.
Para a gerente de Trabalho e Ações de Cidadania, Mirian Varela, a capacitação oferece oportunidades de aprendizado e desenvolvimento pessoal por meio do artesanato.
“A capacitação proporciona aos participantes o aprendizado de técnicas artesanais, estimulando a criatividade e o desenvolvimento de habilidades manuais”, destaca.
A superintendente de Proteção Social Básica da SAS, Gizeli Motta, também ressalta a importância das atividades artesanais para o fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários. Além de estimular a convivência e contribuir para o bem-estar dos participantes, a oficina oferece possibilidades de geração de renda e inclusão produtiva.
“Por utilizar apenas materiais de baixo custo e fácil acesso, como retalhos e sobras de tecidos, a técnica permite que as alunas comecem a produzir em casa sem a necessidade de grandes investimentos iniciais, criando oportunidades reais de geração de renda complementar por meio da comercialização em feiras comunitárias, encomendas e redes sociais”, afirma.
Para Rosi, a oficina foi muito além do aprendizado de uma nova técnica. Em meio à saudade, ela encontrou uma maneira de homenagear o filho, fortalecer novos vínculos e levar adiante um gesto de amor e solidariedade. Agora, cada boneco produzido representa uma lembrança de Carlinhos e a possibilidade de proporcionar um momento de alegria a outras crianças.
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