A gengiva que sangra na escovação costuma ser vista como um problema só da boca. Nas últimas duas décadas, porém, pesquisadores da área do coração passaram a olhar para ela com atenção crescente, e os resultados reforçam a ideia de que saúde bucal e saúde cardiovascular caminham juntas.
A periodontite é a inflamação crônica da gengiva e do osso que sustenta os dentes. Uma revisão publicada no Journal of General Internal Medicine reuniu sete estudos que acompanharam grupos de pessoas ao longo do tempo. Quem tinha periodontite apresentou risco cerca de 24% maior de doença coronária, o problema nas artérias que levam sangue ao coração, em comparação com quem não tinha.
Um sinal que se repete
Uma revisão mais recente, de 2023, analisou 32 estudos do mesmo tipo e encontrou risco cerca de 20% maior para doenças cardiovasculares em geral, e cerca de 14% maior para a doença coronária especificamente. Pesquisas diferentes, feitas em épocas e populações diferentes, chegam a resultados na mesma direção.
Vale entender o número: risco 24% maior não significa que 24% das pessoas com periodontite terão problema no coração. É uma comparação entre grupos: entre quem tem a doença na gengiva, os casos de doença coronária foram mais frequentes. Por serem estudos de observação, eles mostram associação, e os pesquisadores descontam nos cálculos fatores que pesam nas duas doenças, como cigarro, idade e diabetes.
Inflamação: o elo entre a boca e as artérias
A explicação mais estudada é a inflamação. Na periodontite avançada, formam-se pequenas "bolsas" entre a gengiva e o dente, com o tecido interno ferido. Somadas, essas feridas formam uma área considerável em contato com a circulação. Por ali passam bactérias e substâncias inflamatórias que podem contribuir para a inflamação das artérias e para a formação de placas dentro delas, a aterosclerose.
É por isso que a gengiva interessa a quem cuida do coração: ela é uma fonte de inflamação crônica que pode ser identificada em uma consulta e tratada.
A gengiva no check-up
Para quem já tem doença cardíaca ou fatores de risco, faz sentido incluir a avaliação da gengiva no acompanhamento de rotina, assim como se acompanham a pressão e o colesterol. Sangramento frequente, gengiva retraída e dentes que amolecem são sinais para procurar um cirurgião-dentista, que define a conduta depois de examinar cada caso, em diálogo com o cardiologista.
Dr. Fernando Costa Jr.
Cirurgião-dentista. Pioneiro em Laser Fotona na Odonotologia — CRO-SP 38692.
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