A Polícia Civil de São Paulo indetificou movimentações financeiras suspeitas que somaram mais de R$ 9,6 bilhões ao longo de 2025. O trabalho vem do Laboratório de Tecnologia Contra a Lavagem de Dinheiro (LAB-LD), unidade especializada do Departamento de Inteligência da Polícia Civil (Dipol).
Dentro desse montante, encontram-se também os valores relacionados à Operação Vérnix , deflagrada no último mês para desarticular um esquema de ocultação de patrimônio por meio de empresas de fachada.
Instalado no 18º andar do Palácio da Polícia Civil , o LAB-LD realiza um trabalho silencioso, mas fundamental para investigações que embasam grandes operações contra o crime organizado. Somente no ano passado, mais de 69 mil contas bancárias foram analisadas pelas equipes, resultando na emissão de quase 130 relatórios técnicos.
Um desses relatórios serviu de base para as apurações que levaram ao indiciamento de sete pessoas, além do bloqueio de mais de R$ 327 milhões, da apreensão de 17 veículos de luxo e de quatro imóveis vinculados aos investigados na Operação Vérnix, realizada em parceria com o Ministério Público. Os envolvidos, influenciadores e integrantes de uma organização criminosa, mantinham um esquema de lavagem de dinheiro por meio de empresas de fachada e uso de contas “laranjas”.
Segundo a Polícia Civil, a operação só foi deflagrada após a conclusão do relatório técnico, que reuniu informações detalhadas sobre as transações financeiras realizadas pela quadrilha. O documento também apontou as movimentações feitas pelos investigados desde 2019, quando o esquema passou a ser apurado. Foi constatado que o patrimônio e os valores movimentados eram incompatíveis com a capacidade econômica declarada pelos suspeitos.
“Cada vez mais descobrimos novas formas de lavagem de dinheiro, e a maneira mais eficaz de combater esse tipo de crime é por meio da asfixia financeira dessas organizações”, explica o delegado-geral da Polícia Civil, Artur Dian.
Outra investigação de repercussão que contou diretamente com o apoio do LAB-LD foi a Operação Scream Fake (falso grito, em português), deflagrada no ano passado. Na ocasião, foram cumpridos 12 mandados de prisão preventiva e 14 de busca e apreensão contra advogados e dirigentes de uma Organização Não Governamental (ONG) suspeitos de atuar em benefício do crime organizado. A entidade, que alegava defender os direitos dos presos, era utilizada para lavar dinheiro e oferecer serviços médicos e até estéticos exclusivamente a integrantes da alta cúpula da facção presos.
Para o secretário da Segurança Pública, Osvaldo Nico Gonçalves, o Laboratório de Tecnologia contra a Lavagem de Dinheiro tem sido essencial para o avanço das investigações.
“É um setor que presta apoio às delegacias e departamentos especializados da Polícia Civil, mas com a função de rastrear o dinheiro. Hoje vemos criminosos criando alternativas para esconder a origem ilícita dos bens adquiridos, mas é por meio do trabalho dessa equipe especializada que conseguimos identificar as irregularidades e deflagrar ações de combate”, afirma.
Desde abril deste ano, uma portaria da Delegacia Geral de Polícia tornou o Laboratório de Tecnologia contra a Lavagem de Dinheiro (LAB-LD) uma peça ainda mais estratégica nas investigações financeiras. A norma passou a exigir que as unidades policiais informem quais medidas foram adotadas a partir dos relatórios técnicos produzidos pelo laboratório, incluindo instauração de inquéritos, prisões, apreensão de bens e recuperação de valores.
A regulamentação também estabeleceu regras mais rigorosas para a solicitação e utilização de informações do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que agora devem estar vinculadas a inquéritos policiais formalmente instaurados. Essa mudança, segundo a Polícia Civil, tem o objetivo de ampliar a rastreabilidade das investigações e mensurar de forma mais precisa os resultados alcançados a partir do trabalho de inteligência financeira desenvolvido pelo laboratório.
O LAB-LD da Polícia Civil de São Paulo é um dos mais estruturados do país. A unidade conta com mais de 30 agentes e tecnologias especializadas que ampliam a capacidade de análise financeira e dão mais agilidade às investigações. Os profissionais, muitos deles formados em ciências contábeis, administração e economia, só entram em ação após solicitações de delegacias regionais para aprofundar a análise de suspeitas de lavagem de dinheiro.
Pela primeira vez desde 2010, a unidade conta com uma delegada-assistente. Recentemente, também recebeu investimentos para a aquisição de computadores mais modernos, um servidor de alta capacidade de processamento e um sistema de análise de vínculos que auxilia na produção dos relatórios técnicos.
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