O Tele-UTI Obstétrica, desenvolvido pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP em parceria com o Ministério da Saúde, reduziu em cerca de 45% as mortes de gestantes e puérperas em hospitais participantes por meio da telemedicina, segundo estudo publicado pela revista BMJ Global Health.
Carlos Roberto Carvalho, professor na Faculdade de Medicina, diretor da saúde digital do HC e primeiro autor do artigo, explica que, durante a pandemia da covid- 19, o Brasil registrou um aumento expressivo das mortes de gestantes internadas em UTIs. Com a circulação de variantes mais agressivas do coronavírus, muitas grávidas desenvolveram quadros graves de insuficiência respiratória, enquanto hospitais de diferentes regiões não tinham condições de oferecer atendimento especializado.
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Diante desse cenário, o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP passou a utilizar a telemedicina para conectar especialistas a equipes médicas de todo o País, oferecendo suporte remoto no tratamento de casos complexos. Com o avanço do projeto, o modelo deixou de atender apenas a pacientes com covid-19 e passou a auxiliar também no manejo de outras emergências obstétricas, como hemorragias, hipertensão e sepse.
“Em 22, o governo federal pediu para que nós desenvolvêssemos um projeto em nível nacional, unindo o nosso atendimento obstétrico com o nosso atendimento de Tele-UTI. Então, duas equipes, a equipe da obstetrícia coordenada pela professora Rosana Francisco e a equipe da UTI, aqui da UTI respiratória, coordenada por mim, pelo Marcelo Amato, pelo Eduardo Leite, montamos um protocolo de atendimento nas duas áreas e passamos a fazer a capacitação de profissionais de saúde de diferentes áreas do Brasil, onde o Ministério da Saúde tinha detectado que a razão de morte materna, a mortalidade na UTI inicialmente por covid, estava muito aumentada” , explica Carvalho.
A iniciativa foi implantada em 25 hospitais brasileiros e combinou capacitação de profissionais de saúde, teleconsultas e acompanhamento remoto de casos graves. Para medir os efeitos da iniciativa os pesquisadores compararam dados de 16 hospitais antes e depois da adoção da Tele-UTI Obstétrica. O estudo aponta que a iniciativa ajudou a evitar ao menos 21 mortes de gestantes e puérperas entre 2022 e 2024, resultado associado também à capacitação das equipes e ao acompanhamento contínuo de casos graves.
A covid-19 deixou de ser a principal demanda no decorrer do tempo. “Nós capacitamos esses hospitais para os problemas reais do dia a dia das gestantes, nós conseguimos fazer a capacitação não só para cuidar da parte respiratória durante uma infecção viral ou uma pneumonia grave, como tivemos oportunidade de capacitar essas equipes nas coisas mais comuns do dia a dia da obstetrícia, detalha o médico.
Segundo os coordenadores do estudo, a experiência demonstrou que soluções de baixo custo, aliadas à capacitação profissional, podem gerar impacto direto na saúde pública. Com a publicação internacional dos resultados, o modelo desenvolvido pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP passa a ser visto também como referência para outros países que enfrentam desafios semelhantes na assistência materna.
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